sábado, 17 de outubro de 2015

Adaptação x Saudades

   Após um ano vivendo nos EUA, posso dizer muita coisa de tudo que aqui vivi. Quando cheguei, a coisa que mais me dava desespero, era não saber onde ir para comprar nem mesmo uma agulha. É uma situação bastante complicada e confusa, a aceitação não é fácil, praticamente é necessário reaprender as coisas mais simples e bobas.
   Aqui nós EUA, os pequenos comércios, tipo cafeterias, são muito populares, e logo que cheguei, fui fazer um teste em uma pequena padaria gourmet, teria de atender ao balcão. Nunca na minha vida, tinha trabalhado como balconista, não sou a pessoa mais comunicativa deste mundo, e não levo jeito com o atendimento ao público. Meu inglês, ainda não estava bom, na verdade, estava assustada demais para confiar em tudo que sabia, e também, não conhecia os produtos locais, tudo era novidade; café descafeinado, leite magro, leite com creme, café gelado, café descafeinado com creme e chantili, as formas de preparar tudo, não sabia absolutamente nada.
   No meu primeiro dia, e único, fui colocada para atender o balcão, junto às outras atendentes, não sabia operar o caixa, onde ficavam as coisas, não conhecia o cardápio do local (também eram servidos sanduíches, sopas, quiches e etc) fora as sobremesas, bolos, biscoitos, tortas, muito menos os preços. As pessoas faziam os pedidos e eu não entendia nada, não por não falar o idioma, mas não sabia de que se tratava cada produto. A cada cliente eu ficava mais e mais angustiada, minha vontade era de fazer um buraco na terra e me esconde nele. Foram as seis horas mais longas da minha vida.
   Ao final do período, a dona da confeitaria me disse que em breve me ligaria, eu sai do local o mais rápido que pude, sem receber, quando cheguei em casa, quis apenas tomar um banho, agarrar meu travesseiro, e chorar para por pra fora toda a humilhação que sofri naquele dia. Não queria voltar àquele lugar nem mesmo para pegar meu pagamento. Demorei dois anos, para vencer meu trauma, e conseguir pisar novamente naquele lugar.
   Fazia pouco tempo que estávamos longe do Brasil, mas a saudade de nossa vida, rotina, já apertava, principalmente quando me lembrava de ouvir minha mãe dizendo, que se eu queria um futuro diferente, um pouco melhor que o dela, deveria estudar. Eu me perguntava a todo momento, que eu estava fazendo neste lugar??? Por qual motivo, estava guardando meu diploma da faculdade em uma gaveta, para limpar casas, ou cuidar de crianças, que muitas vezes me maltratavam? Por qual motivo, estava vivendo na casa de outras pessoas, de favor, se no Brasil, tinha minha casa montada com cada detalhe a meu gosto, no país que falava o meu idioma, que eu tinha pessoas que me amavam ao meu redor? 
   Com tanto sofrimento, tantas frustrações, vendo meu marido infeliz no trabalho, também não conseguia se adaptar ao serviço, sem falar o idioma, me perguntava, será que estamos fazendo a melhor escolha? A cada dia que passava, a saudade de nossa vida no Brasil só fazia aumentar. Quando falávamos com nossos familiares, dizíamos apenas que estava tudo bem, e contávamos a respeito das belezas do lugar e mais nada. Muitas vezes, meu marido e eu, deitamos para dormir, escondendo um do doutro, nossas tristezas, medos e insegurança. Existiam apenas duas coisas que nos fazia continuar tentando: a fé, de que Deus não nos desampararia, e a imensa vontade de vencer.

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